Publicado originalmente no site da Pardi e Morais: pardimorais.com.br/golpe-biometria-facial-financiamento
Nesta quinta-feira (8), a Polícia Federal deflagrou em Uberlândia (MG) a Operação Brinde Facial. Segundo a PF, o grupo abordava pessoas com a desculpa de entregar um brinde ou uma encomenda, fotografava a vítima, coletava os dados e capturava a biometria facial. Depois, usava tudo isso para contratar financiamento de veículo no nome dela. A notícia foi publicada pelo Metrópoles e pelo O Tempo.
Se você acha que só cai nisso quem é desatento, repare num detalhe: a vítima não clicou em link nenhum. Ela abriu a porta, olhou para o celular do “entregador” e confirmou um recebimento. O golpe da biometria facial funciona porque o seu rosto virou senha.
Como funcionava o golpe da biometria facial?
Pelo que a PF divulgou, até agora foram identificados quatro financiamentos fraudulentos, que somam cerca de R$ 453 mil. O dinheiro caía na conta de uma empresa ligada ao grupo e era logo transferido e fracionado entre outras pessoas. Os laudos apontam que essa empresa recebeu mais de R$ 7,1 milhões entre 2022 e 2023, com capital social de R$ 10 mil. Foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão.
O roteiro é simples:
- alguém aparece com um “brinde” ou uma “encomenda” que você não pediu;
- pede uma foto sua “para comprovar a entrega”, às vezes segurando um documento;
- com a foto, os dados e a biometria, o grupo faz o cadastro e pede o financiamento como se fosse você;
- o dinheiro vai para uma conta que não é a sua, e você só descobre quando chega a cobrança.
Essa última parte é a que mais importa juridicamente. Já volto nela.
Como descubro se fizeram um financiamento no meu nome?
O caminho mais seguro é o Registrato, do Banco Central. É gratuito e mostra os empréstimos e financiamentos registrados no seu CPF, as contas abertas em seu nome e as chaves Pix. O acesso é pela conta gov.br, que por isso mesmo precisa estar bem protegida. Escrevi sobre isso em conta gov.br, a chave mestra da fraude.
Vale também conferir se surgiu alguma negativação e se chegou carta, SMS ou e-mail de financeira com a qual você nunca falou.
Se a selfie é minha, o banco pode dizer que fui eu?
Pode tentar. E esse é o ponto delicado deste golpe.
Em março de 2026, a Terceira Turma do STJ julgou o REsp 2.197.156, relatado pela ministra Nancy Andrighi, e entendeu que a simples negativa do cliente não basta para anular um contrato digital quando o conjunto de provas indica que não houve fraude. Naquele caso, o banco apresentou selfie com documento, geolocalização compatível com o endereço da cliente e o comprovante de que o dinheiro caiu na conta dela.
Repare no último item. No golpe da biometria facial, a selfie pode até ser verdadeira, mas o dinheiro não foi para a sua conta. Foi para a conta de uma empresa de fachada. A localização e o aparelho usados na contratação também costumam não bater com os seus. É nesses detalhes que a fraude aparece.
E quem tem de provar que a contratação foi regular é a instituição financeira. O STJ fixou no Tema 1061 que, quando o consumidor contesta a autenticidade da assinatura, o ônus da prova é do banco. Somado ao art. 14 do Código de Defesa do Consumidor e à Súmula 479 do STJ, que trata a fraude de terceiros em operações bancárias como risco da própria atividade, há base para discutir a dívida. Mas tudo depende de prova bem montada desde o início.
O que fazer se financiaram um carro no meu nome?
- baixe o relatório do Registrato e guarde o PDF;
- registre boletim de ocorrência contando como foi a abordagem: data, hora, lugar e o que pediram;
- conteste por escrito na financeira, primeiro no SAC e depois na ouvidoria, e anote cada protocolo;
- peça cópia do contrato, da selfie, dos registros de IP, aparelho e localização e do comprovante de para onde foi o dinheiro;
- não pague parcelas “para não sujar o nome” sem orientação, porque isso pode ser lido como reconhecimento da dívida.
Se houver negativação ou cobrança indevida, a discussão judicial costuma envolver a declaração de que a dívida não existe, a devolução do que foi pago e, conforme o caso, indenização. Cada caso tem a sua prova, e é ela que define o caminho. O passo a passo da contestação está em operação não reconhecida: como contestar no banco, e o raciocínio é parecido com o do empréstimo consignado fraudulento.
Como não cair no golpe da biometria facial?
A regra que eu passo para clientes e para a minha família é curta: ninguém tira foto do seu rosto na porta de casa. Entrega de verdade não exige selfie. Se aparecer brinde que você não pediu, recuse, não mostre documento e não confirme nada no celular de outra pessoa. Trate a sua biometria como trata a senha do banco, porque, para muitos sistemas, ela é exatamente isso.
Se você descobriu um financiamento que não fez, me chame no WhatsApp. A gente analisa os documentos e explica os caminhos possíveis. Veja também como atuamos em casos de fraude bancária em São Paulo.
Foto: A Chosen Soul / Unsplash




